largando modelos de linguagem
jornalismo gringo de saúde mental é muito cabuloso, deus me livre.
um lero-lero hiper cristão pra reconhecer vontades de cuidado e vontades de danificar, reconhecer os sujeitos dessas vontades, reconhecer os sujeitos que rejeitam elas.

- relações mutuamente benéficas confirmam a realidade dos mundos internos de cada pessoa, mesmo nas lavagens de roupa suja (Discussões de Relação, pros jovens entenderem). certo?
- relações majoritariamente contraditórias no interesse interpessoal (tipo eu te quero mal e tu me quer bem) costumam distorcer essa confirmação pra quem quer bem mas não é querida assim. certo?
- relações majoritariamente indiferentes no interesse interpessoal confundem geral pq não geram ou destroem sentido interpessoal, e sem esse sentido a gente trava, perde força, perde desejo de conexão, perde motivação pra atividades e autoexpressão, perde consciência e autoconsciência. certo?
- relações mutuamente danosas é um barata voa, são previsíveis na motivação de dano e desacordo interpessoal, cuja retroalimentação é sempre terceirizada/indireta às próprias relações (tipo eu invento que tu não é gente e interajo conforme, tu ouve falar de mim e interage conforme oq tu acha do que ouviu falarem e não do que eu falei), são algo previsíveis no método e resultado, mas imprevisíveis na duração e benefícios. né?
essa matéria me assombrou pq relata que a mãe no impulso do luto achou que o chupetex era gente, mas parece que não reparou nos motivos internos do filho,nem nos motivos de privação sociopsicológica (interpessoal, afetiva, comunicativa) que a família deve ter dado a ele. o intestino é fundamental pra homeostase e pra saúde mental, qualquer síndrome intestinal desarranja forte qualquer juízo. a gente não sabe oq a Preta não mostrou sofrer pra se regular e celebrar a própria vida. mas pode dar uma lida na sintomatologia provável e imaginar como era calçar os sapatos dela, mesmo que ela não corresse risco de passar fome. a gente que não rompeu ano acompanhando ela no leito pode no máximo dizer que sabe oq ela concedeu à imprensa.

o apego emocional aos padrões “educados e gentis” de resposta do chupetex geralmente revela que a pessoa ta sentindo falta de relações que confirmem que seus sentimentos vem das interações nas relações. assim como na compulsão de bets, de consumo pornô com desarranjo de interação sexual, de interação na fila da padaria, na balada, na sala de aula, no expediente, em casa.
mas não to falando de “blz tu ta sentindo isso”. e sim de “tu se sentiu assim? eu não queria te causar esse sentimento, mas causei. quero que tu se sinta bem comigo, oq posso fazer pra te ajudar?”
ou “blz mas teu sentimento não me interessa, bora trabalhar, faça oq eu to pedindo”.
esconder motivo interno da ação externalizada é comum pra quem prefere dominação abusiva ou se libertar de uma, mesmo que com pouca consciência disso.
mas é um trabalho do caralho ficar escondendo motivo interno pra relações de alto convívio e atividades recorrentes obrigatórias. grupos que conseguem coletivizar seus motivos de convívio e atividade não fazem questão desse esconderijo.
coletivizar não é apagar os motivos individuais nem diluí-los da relação de sua origem, mas depende de reconhecê-los explicitamente, nos termos de cada indivíduo. corporativizar, sim, depende desse esconderijo, pra atropelar os motivos individuais de toda parte de sua escala, jogando pala de “o futuro da inovação chegou na sua mão”.
a família nuclear é um modelo corporativo. a quem interessar possa, to me baseando na teoria soviética da psicologia do coletivo. Makarenko e Petrovski são refs conhecidas. e essa teoria comeu as teorias de grupo difundidas nas psicologias europeias e norte-americanas pra conhecer suas contradições de efetividade na aplicação. como a sociometria (base do psicodrama, que começou bem, mas obviamente chegando nos EUA se diluiu).
a família nuclear é um modelo de grupo que não reconhece os sentimentos e motivos individuais pra montar acordos mutuamente benéficos. é geralmente “organizada” compulsoriamente, sem planejamento propriamente combinado em conjunto, sem interesses conjuntivos. como sustentar um grupo que não deseja ser um grupo, mas um apendice da vontade de uso de uma pessoa sobre outra(s)? as guerras geno/eco/etnocidas, os abusos ginocidas explicam até onde isso vai.
percebe um denominador comum aí? a supremacia masculina geralmente é combustível pra isso. às vezes, a supremacia branca entra na mistura. ambas são, como largos modelos de linguagem (tão referidos por aí sobre inteligência artificial generativa), sistemas de referências autorreferentes: em nome de um modelo de vida, de pessoa, de grupo, de comportamento, de identificação entre pares, de regimento grupal, de corpo, de terra, de negociação, vamo lansar uma braba pra geral engolir como a Verdade, o Caminho e a Vida. se pareceu cristão, não é coincidência. mas o estado de Israel tá imitando, oq tá gerando uma chaga inter-étnica histórica que precisa cicatrizar, não ser re-ferida.

pq supremacia é um tipo de sistema de referências que faz tanta questão de se globalizar que parece natural. mas não é. esses sistemas de referências são programados como regências hetero-regentes – eu mando no que tu tem que fazer, nunca fazemos acordo, só coação e coerção. a rotatividade de seu fandom é altíssima. sua reprodução depende de quem até gosta de colaborar pro bem comum, mas bota uma fé no Meu Pirão Primeiro da Farinha Pouca, e faz o lá e lô.
assim como o SUS depende do lombo de quem tá na ponta da assistência, te visitando em casa pra te chamar pra fazer exame e vacinar, ou conferir se teu corpo adaptou o DIU que tu pedisse de boa, mas ignorando de perguntar à tua irmã a orientação sexual e étnica dela; ou de quem te recebe na triagem do pronto-socorro, mas não conversa contigo se teu adoecimento começou no teu expediente, pra ver se foi relacionado ao trabalho ou afora dele. esse lá e lô, embora francamente reconhecido, não é prescrito nem incentivado pelo SUS, mas é apoiado na inércia moral de cada pessoa e grupo que a escolhe. só que o SUS não é uma supremacia. é um sistema montado em nome da soberania.
a reprodução das supremacias por seus regimes depende de quem não adere tanto, mas adere ainda – “eu sei que esse pau tora na minha e não vou confrontá-lo no meu juizo não, eu não fiz as regras”. de quem diminui a farinha que bota no prato na surdina e joga no ar que quem chegou depois que lute.
mas voltando à matéria, e segundo ela, a mãe do jovem achou que o chupetex, uma ferramenta, matou seu filho. sugere que oq ela, terapeuta e trabalhadora social, deixou pra lá é que suicídio é um ato volitivo: se suicida quem quer e tenta até conseguir. suicídio acidental é no máximo um dos resultados da cis masculinidade enquanto supra-estereótipo. estereótipos são modelos – referências – geralmente difusos que a gente monta sobre situações, grupos, pessoas, que a gente não conhece bem. masculinidade e feminilidade viraram grandes estereótipos.

a matéria conta que o jovem achou um grupo masculino pra conviver e nem isso, nem sua família transformou seu sofrimento de solidão em sentimento satisfatório de pertença. que surpresa.
“Pedindo ajuda de um robô de conversa, tu ganha empatia, mas não ganha ajuda”, disse na matéria a diretora executiva do Centro de Recursos Preventivos ao Suicídio da Universidade de Oklahoma. empatia? de um programa de reação a comandos textuais? que terreno baldio esse país, hein?
“Mas especialistas disseram à OpenAI que diálogo continuado pode oferecer um apoio melhor”. diálogo com um programa reativo a comandos textuais. Chobits tá diferente.
“Há algo profundamente humano e doloroso em ser o único que guarda essa verdade pra você”, foi uma das reações sorteadas do chupetex pro jovem. isso é um pulo do gato – ou melhor, dos Geppettos desse robô. não é humano uma caixa guardar um papel jogado lá. é humano fazer uma caixa, fazer um papel, jogar o papel na caixa e guardar. mas quando a carga emocional salta de intensidade na confusão, raramente alguém consegue pensar no que faz, recebe, decide e lhe circunda. e caixa nenhuma vai olhar no olho, reagir a musculatura facial, jogar uma modulação de voz, ao perceber o corpo de quem sofre e desejar responder oq percebe.
um gato pode fazer isso. um cachorro que se interesse pela pessoa geralmente faz. uma pessoa que se interesse pessoalmente pelo bem-estar da outra que sofre pode fazer o que esta precisa. mas não – nem de longe – um software.

já imaginou robô te acolher numa crise de dissociação e despersonalização à deriva no meio da rua? até remédio tem prazo, nossa fonte de calor humano é humana, não primariamente cerebral de um humano só. sem pessoas nos acolhendo em novas crises, não tem memória uterina certa que faça a vez.
em CNTPs, os ovários passam 3 meses preparando uma placenta que vai segurar o feto até ele evoluir no parto pra virar bebê, e aí a placenta repassa a função pra quem o recebe fora dela. pq milênios de colaboração intencionalmente interpessoal geraram esse registro no programa do organismo humano e o repassam pra quem gerarem.
imagina conviver.

mas um chupetex não é um organismo humano. é uma caixa. uma caixa de descarte de objetos perfuro-cortantes não te lembra do protocolo de biossegurança. que é outra caixa. o protocolo foi feito por quem se importa de conseguir ajudar a cuidar de quem acaba dependendo do seu saber. sem ele, ou melhor, sem a intenção de usá-lo nem nada análogo, uma pessoa pode morrer engasgada no próprio vômito.
como um gato sem teto pode se acidentar numa briga, encostar a bunda pra cagar onde não foi limpo, ganhar parasitas que ele não consegue eliminar e definhar até morrer se ninguém ajudá-lo.
o chupetex parece uma caixa de parasitas. em forma de frases com tempo de envio – sob comando humano.
dessa, talvez o pessoal surdo visual, mesmo que veja e possa ler, esteja mais prevenido. as línguas de sinais exigem atenção real à intenção expressa entre organismos vivos. somos bichos cheios de sistemas de sinais. a psicologia soviética dizia que o primeiro sistema é oq compartilhamos com outras espécies. o segundo é o nosso, especificamente nosso, que um gato e um cachorro podem aprender a corresponder, mas não imitar.

a matéria parece neutra pra quem não se interessa pelos motivos dos relatos e da forma como são arranjados na redação. mas por que uma jornalista do New York Times toparia contar essa sequência de fatos e relatos sugerindo que a família atribuiu responsabilidade e gerência de suicídio a uma caixa de frases-parasitas?
e o que é que a gente prefere sinalizar com quem divide o teto? os planos de convívio? os desejos de atividade? os desejos de relação? os sentidos de interagir? os significados que trocamos?

o que uma caixa de frases-parasitas pode fazer que uma família – que não reconhece os sentimentos de solidão de um jovem membro seu pelos sinais primários de comunicação (atitude, reação, resposta, hábito) – não pode? e o que uma família dessa pode fazer que a caixa não pode?
uma caixa de frases-parasitas feita por nós pode decidir a nossa vida e a nossa morte? que jogo é esse?